• Mateus Habib

Comer e ser

Se o tempo é áspero, a alma pede lisura. Para mim essa paz anda solta no mar, está nos olhos doces do meu cachorro e do vento, e me ligo especialmente na que pousa nos copos, pratos e xícaras que cruzam meu dia. Me busco nesses lugares simbólicos se uma notícia ruim me golpeia, quer ela seja do tamaninho de uma formiga ou da devastação de uma pandemia.


Comer o que alimenta além do corpo foi o jeito que encontrei de ser, já que pode nutrir e curar não só às coisas dele próprio, mas às da alma e da mente, também. Quem tem o privilégio de escolher o que come, penso, deve escolher em seu favor. Comer o que se gosta, e sem banalizar as refeições. Ao contrário eleger seus contornos como quem elege um Presidente. Mais do que nunca, sabemos bem que peso isso tem. Sei que um garfo já me salvou de muita coisa.


Sinto desapontar o rumo da prosa se alimento e bem-estar, para quem lê, só andam juntos se forem verdes, crus, vivos. A vida é bem melhor com eles, é verdade, mas não é nada, por outro lado, sem outras frugalidades do espírito, as que tem o mesmo poder de uma respiração longa e profunda, dessas que a Vanessa convoca o ar morno do Rio.


Falo de bem-viver, de bolos de fubá no meio da tarde com um gole de café ou chá. Da surpresa de saber que nesse bolo alguém teve a ideia luminosa de salpicar um punhado de sementes de erva-doce, sem se dar conta que esse feito mudaria o dia de quem vai comê-lo. Penso no cheiro de alho refogando que invade as casas aos meios-dias e passo a sonhar com pratos feitos de comida simples, com feijão grosso, couve fatiada fina, abóbora macia, farofa e quiabos firmes.


Bolo de rolo, cuscuz, ovos mexidos feitos com amor de avó, suspiros, quindim, balas azedas de tamarindo. Limões-cravo de Paraty, ou iguaizinhos a eles, aos montes nas feiras orgânicas daqui, feitos para caipirinhas.


Coisas assim me alimentam de esperança e me lembram da gente do Brasil, dessa cultura que ferve, move e muda a cada dia, fundada na mistura, afundada em crises. E como quem toma água fresca de filtro de barro em dia de calorão, torno a respirar tranquilo, mesmo que por um instante.


“E tem uma hora em que você está distraído, jantando num restaurante caro, e sente aquele ‘não pertencer’ no ar. Você realmente não conhece aquele lugar. Aquelas pessoas nunca atravessaram as ruas estreitas do centro da sua cidade, não compraram livros em livrarias pequenas e antigas, não sentiram de perto a negritude das gentes, […] e você pensa: ‘O que estou fazendo aqui, jantando vieiras com aspargos sob um lustre de cristal preto?’ Não sou eu, com certeza. Meu lugar é lá, na ala das velhas baianas. Me esperem que estou chegando para a feijoada.”


— Nina Horta. O frango ensopado da minha mãe.


* Mateus Habib é jornalista formado pela Escola de Comunicação da UFRJ, escreve sobre gastronomia, vinhos e café e é apaixonado pela cultura do Brasil.

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