• Vanessa Aragão

E que diabos é sempre?

Sempre, nunca, palavras absolutas que não podemos compreender sendo como somos: criaturas presas a um breve conceito de tempo. Pensar Construção como o tema de reabertura da Casa me faz refletir sobre o tempo: 41 anos, 2 semanas e 5 dias.


Todas as crises de angústia que já senti na pele ampliaram meu conceito de mundo e hoje tudo que mais amo é perambular pelas esquinas do meu mundo interior. E se você, meu caro, leu os artigos desse mês, já entendeu que não existe construção sem (des)construção. E meu olhar só vem acrescentar que: não existe (des)construção sem envolvimento. E envolvimento requer sentir. E sentir requer tempo.


No correr dos dias, as pessoas mal respiram, ou têm consciência do que põem na boca para comer. Por isso, reabrimos a Casa com esse convite de pensar bem-estar como um ato de resistência. Consciência do corpo, da mente, consciência de ser o que se é e escolher ir além da experiência da sobrevivência. Você pode chamar isso de utopia, de poesia, de papo furado, de sonho de iogue hippie, mas eu (e muita gente, ufa!) chamo de (des)construção.


A tristeza aguda é uma alienação, você se cala e se fecha. Envolver-se pede ambientes seguros de diálogo e troca, de apreensão de sentidos e novas ideias. E pede corpo! Muito corpo.Precisamos perceber que estamos presos nas nossas cabeças, e que as respostas estão no corpo, no sentir. Procure nele.


O corpo é sábio, vai dizer coisas que sua mente vai tentar convencê-lo do contrário. Aprendi que meu corpo está dizendo que direção fica a minha vida. Em geral, me afasto do frio e sigo na direção daquilo que me aquece. Quando sinto alegria, acredito no calor e fico. Há 4 anos mudei toda a minha vida porque senti o calor no corpo lá no gelo dos Himalaias. E confio nele e ensino as pessoas a pararem para sentir seus corpos e confiarem também.


A minha construção emerge das águas, não só porque sou filha de Oxum, mas porque deixar para trás aquela imagem que eu acreditava ser real de mim mesma, há 4 anos e agora, no meio de uma pandemia e confinamento, pediu litros e litros de lágrimas para lavar tudo, ou quase tudo que havia sido esboçado por dentro.


Em 2020 e agora em 2021, descobri que a minha (des)construção tem som de água. Foi na enxurrada de lágrimas que meu corpo me direcionou onde devo estar: em mim.

Eu confio. E confio em mulheres que confiam em si mesmas.



*Vanessa Aragão vive na ponte aérea Rio de Janeiro - Nepal, entre o urbano concreto e a natureza ancestral dos Himalaias, onde mergulha em suas especializações. É curadora da Casa Ser e criadora do projeto Meditante Urbana, plataforma de pesquisas e práticas sobre mente, corpo, som e os saberes da terra.

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