• Eduarda Vieira

Feliz ano novo!

Há um ano ouvíamos que a pandemia ia mudar a sociedade. O vírus que nos fez parar ia nos ajudar a olhar o outro e perceber que somos todos iguais. Vimos uma enxurrada de positividade e de frases como “vai ficar tudo bem”. Mas a partir de qual vivência conseguimos afirmar que “vai ficar tudo bem”? O que é tudo bem? Vivemos num dos países mais desiguais do mundo. Segundo o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgado em dezembro de 2020, no Brasil, 1% da população detém até 30% da renda nacional. Esse o normal que gostaríamos de voltar?


Vivemos o “novo normal”, que além de ser cheio de álcool em gel e máscaras, é composto por um aprofundamento da desigualdade social. No momento, somos o nono país no ranking da desigualdade, segundo IBGE, que usou dados do Banco Mundial para embasar seu ranking. Falamos “lave as mãos!” , no país onde aproximadamente 35 milhões de pessoas vivem sem água encanada, segundo dados do Trata Brasil. Pedimos “isolamento social”, onde 5,6% da população vive em um cômodo com até 3 pessoas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), de 2018.


Somos todos iguais? Vamos todos sobreviver a isso? Eu acho que não. A vida, apesar de um direito, é um privilégio de poucos. Não à toa a primeira morte no país foi de uma empregada doméstica negra, do Rio de Janeiro, que pegou covid 19 de seus patrões que haviam viajado, sabiam que estavam doentes, mas não a liberaram. Por isso pergunto: o que é novo para você?


Yuval Harari, autor de Sapiens, escreveu um artigo que dizia que o mundo carece de líderes humanos e que o antídoto para a pandemia é a colaboração. Não adianta países se fecharem, não adianta mais fechar os olhos para os “invisíveis”, pois nas palavras dele “um vírus pode abrir caminho de Paris a Tóquio e ao México em 24 horas”.


É necessário desconstruir as fortalezas que criamos para enxergar o que tem para além do nosso umbigo. É necessário desconstruir o olhar sobre a realidade e enxergar para além dos túneis e viadutos que separam regiões, pessoas e oportunidades. Apenas a desconstrução é capaz de construir um novo normal. Mais colaborativo e humano.


Neste novo ano que se inicia, de novas promessas e novas dores, eu desejo humanidade e desconstrução.

Feliz 2021!


Duda Vieira é negra, periférica e divide seu tempo entre a gestão de projetos com foco em diversidade, pelo hub Nós, do estúdio de criação Play9. e os estudos de pós-graduação em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global pela PUCRS.

45 visualizações0 comentário